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Mudar de Carreira

As certezas e incertezas numa decisão carregada / com muitas questões

Por: Paula Ramos | Career Advisor

 

A mudança de carreira tem sido ao longo dos anos um tema muito abordado e apesar do contexto de pandemia poder vir a inverter um pouco os seus contornos, acredito que esta continuará a acontecer.

E acontece porque a nossa relação com o mundo de trabalho mudou. Mudou nas últimas décadas, mudou com esta pandemia e vai continuar a mudar certamente.

Se há 20 anos a segurança, a estabilidade numa empresa, o emprego para a vida eram a grande preocupação, atualmente procuramos mais do que isso. Procuramos realização, projeto, missão. O trabalho é uma parte importante e relevante da nossa vida e como tal, é requisito que aí tenhamos também uma experiência feliz. E a mudança de carreira tem, na sua génese, esse princípio.

 

Contudo este não é um processo rápido e muito menos simples. Há muito a decidir e muitas questões a precisar de resposta.

Porque quero mudar? O que procuro na minha carreira que não tenho atualmente? Porque não tenho? Vou mudar para o quê? O que tenho de diferenciador para que consiga vingar nesse novo contexto? Quem vai estar comigo nesta mudança? Como vai ser o meu dia a dia? Como penso estar daqui a um ano? E a cinco?

Tudo isto deve ser equacionado e respondido, acima de tudo, com sinceridade connosco próprios.

 

A decisão de mudança deve ser muito ponderada e deve ser amadurecida. Se pode surgir num momento de cabeça quente, deverá ser sempre alvo de reflexão, essencialmente, de cabeça fria.

O ímpeto de decidir mudar, porque existe uma nova chefia, porque há uma alteração de contexto na empresa, porque um amigo mudou e está agora muito mais feliz, podem ser catalisadores para uma mudança, mas não devem nunca ser a razão da decisão.

Mudar de carreira é mais do que mudar de chefia ou empresa.

É fazer algo diferente, é muitas vezes começar num projeto mais pequeno, num nível mais júnior. É estar disposto a aprender todos os dias, é muitas vezes deixar de ter o controlo e esquecer a segurança que o conhecimento de dominar uma área ou tema, muitas vezes nos dá. Mudar de carreira implica muitas vezes errar mais do que estávamos habituados, voltar a questionar o que pode ser óbvio para alguém, e perceber que o controlo de outrora agora é bastante diferente.

A humildade e a consciência desta aprendizagem devem ser complementadas com a maturidade necessária para a decisão.

A mudança de carreira, implica muitas vezes um vencimento inferior e até a mais romântica das leituras deve considerar este fator. Qual é a perda de vencimento que conseguirei suportar sem que questione a minha decisão? Até que ponto viverei bem com isso? Qual é o custo oportunidade desta mudança? Tenho um “balão de oxigénio” para algum imprevisto? Como me vou sentir socialmente com esta alteração?

Se todas estas questões são relativamente fáceis de equacionar, não são, contudo, nada fáceis de responder de forma objetiva… E mesmo quando respondidas, dias diferentes, estados de espírito diferentes vão ter também respostas distintas. E neste sentido, deixo aqui aquele que talvez seja, a par da sinceridade connosco próprios, o aspeto mais relevante a considerar: o planeamento.

E aqui por planeamento, não me refiro só ao plano do que vamos fazer na mudança de carreira, mas a forma como vamos fazer essa mudança.

 

Recomendo aqui o recurso ao “caderninho preto”, aquele onde escrevemos ideias, pensamentos, planos e ambições.

Este planeamento deve ser estruturado e preparado com o detalhe que esta mudança merece. Os objetivos, os diferentes “públicos” que serão impactados e nos impactarão com esta mudança (colegas, ex-colegas, futuros colegas, família, amigos), o investimento inerente (seja por investimento direto, seja pelas alterações do atual vencimento), as ações que vamos encetar para a efetivar, os meios que vamos utilizar para a tornar real, os resultados que esperamos obter e, muito importante, o timing em que tudo isto deve acontecer.

 

Se toda esta planificação pode, em determinados momentos, retirar algum brilho à mudança de carreira, será, no entanto, fundamental para evitar ou minimizar alguns dissabores.

É muito importante que todo este processo seja devidamente maturado, para que nunca se perca a coerência da decisão, garantindo assim lógica em toda a nossa história.

Isto porque, uma mudança não deve significar um corte, um esquecer tudo o que ficou para trás. Tem de existir um reconhecimento deste percurso que tem de ser explicável, pois vamos continuar a estar no mercado, e este tem que nos reconhecer (diferente de aceitar ou compreender).

 

E neste contexto de pandemia, será seguro ou racional equacionar uma mudança?

O contexto hoje é diferente do que vivíamos há pouco mais de um ano atrás. No entanto, daqui a um ano será novamente diferente, e a dois igualmente, daí ser importante nunca passar etapas, nunca se precipitar, mas também não ficar parado.

Por isso, se esta é uma questão que por vezes lhe vem à ideia, aproveite o tempo que hoje até vamos tendo, dedique um tempo a si mesmo, puxe do caderninho e tente responder a todas as questões que lhe surgem.

Se a decisão for para avançar, força, coragem, pés na Terra e boa sorte. Se for para ficar, os votos são iguais.

Não mudar não significa que ficou parado, pois se fez uma reflexão, alguma coisa avançou certamente.

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