saúde mental

Bem estar e saúde mental ao serviço da performance

Por: Cristina Correia |  Career Advisor

 

Na nossa vida, como na nossa carreira, surgem por vezes momentos de maior fragilidade psicológica. De causa pessoal/familiar ou profissional, mas que inevitavelmente se refletem em todas as esferas de vida. Porque sentimos como um todo e é impossível separar as águas.

 

Sendo uma parte integral da saúde do ser humano, é lamentável que o bem-estar e saúde mental continue a ser um assunto tão desvalorizado, de um modo geral, e também pelas organizações. Apesar do grande foco que, incontornavelmente, a pandemia veio dar a este tema, receio que a memória seja curta e rapidamente se desligue a atenção deste tópico.

 

Os números e o impacto

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde mental como “um estado de bem-estar que permite às pessoas realizar as suas capacidades e potencial, lidar com o stress normal do dia a dia, trabalhar produtivamente e contribuir ativamente para a sua comunidade”.

 

De acordo com um Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental (Almeida e Xavier, 2009), em Portugal, estima-se que 1 em cada 5 pessoas tenha sofrido uma doença psiquiátrica. Esta prevalência é a 2ª mais alta na Europa, a seguir à Irlanda, que ocupa o 1º lugar. Quase metade da população já teve uma perturbação mental durante a sua vida. De assinalar também que 65% das pessoas com perturbação psiquiátrica, não receberam qualquer tratamento.

 

As perturbações mais comuns são as perturbações de ansiedade (16,5%) e as depressivas (8%).

Outro dado preocupante é o elevado consumo de psicofármacos (quase ¼ das mulheres e 1/10 dos homens utilizam ansiolíticos).

 

A saúde integral do indivíduo não se alcança sem saúde mental. E a saúde mental não implica apenas a ausência de problemas ou doenças mentais. A evidência científica demonstra como a saúde mental é fundamental para a produtividade dos indivíduos, logo, das organizações!

 

Facto é que a falta de saúde mental tem um impacto económico muito expressivo! Estima-se que os custos económicos associados às principais consequências da doença mental ascenda a mais de 2200€/por ano, por lar europeu (McDaid et al., 2008).

 

O principal custo indireto da doença mental que tem impacto nas organizações é a perda de produtividade como consequência do absentismo e do presentismo (esta última correspondendo à presença física dos colaboradores que trabalham abaixo do seu rendimento habitual).

Em Portugal, estima-se que o stress e o burnout custem às empresas 3,2 mil milhões de euros por ano!

 

Claro que os custos das intervenções de promoção de saúde mental e bem-estar no trabalho são de considerar, mas há estudos que sugerem um retorno de investimento na ordem de mais de 9€ por cada 1€ gasto nestas iniciativas (Knaap et al., 2011), o que as transforma em claros investimentos.

 

O papel das empresas

Stress, burnout, depressão, ansiedade e exaustão são os mais comuns problemas que surgem em consequência de dinâmicas que acontecem nas organizações.

Entre os fatores que contribuem para estes problemas, encontramos:

  • Volume de trabalho excessivo
  • Exigências contraditórias
  • Comunicação deficiente e pouco clara
  • Relações de poder abusivas e conflitos (com pares ou superiores hierárquicos)
  • Gestão da mudança ineficaz
  • Mobbing e assédio
  • Falta de autonomia
  • Baixo sentido de propósito e significado

 

Todos sabemos que as empresas podem ter um papel preponderante, tanto na raiz dos problemas de saúde mental, como na sua resolução.

Sabemos bem a importância de as organizações realizarem adequadas e periódicas avaliações de riscos psicossociais; de implementarem iniciativas adequadas, eficazes e contínuas de desenvolvimento organizacional, de desenvolvimento de liderança, de equipas e desenvolvimento individual; de proporcionarem a segurança psicológica, o suporte e acesso aos meios adequados para resolução de problemas desta natureza. Contudo, o foco deste artigo não é “dirigir-me” às empresas.

 

O papel do profissional

O foco deste artigo são os profissionais.

Sendo o foco de atuação a gestão de carreira, entendo que o bem-estar é, no fundo, o grande propósito de qualquer intervenção em gestão de carreira. Concordará quando afirmo que não é possível alcançar a realização e satisfação profissional sem bem-estar e saúde mental.

 

Tal como estimulo um papel proativo do profissional na gestão da sua carreira, também a proatividade por parte do profissional pode contribuir para a prevenção e resolução de problemas de saúde mental e bem-estar. Foquemos no seu papel enquanto promotor e “defensor” do seu próprio bem-estar.

 

Um dos aspetos que considero mais importante (e cuja falta é, na minha experiência com clientes, uma das principais causas de um espectro de insatisfação até aos problemas de saúde mental), é o estabelecer de limites e fronteiras.

 

A minha definição de limites: são as expectativas, necessidades e condições que o ajudam a sentir-se seguro, confortável e capaz de atingir os seus objetivos no seu contexto de atuação.

 

Definir e manter limites e fronteiras saudáveis começa em cada um de nós e no primeiro dia (ou assim deveria ser). É fundamental para que façamos o nosso trabalho ao melhor nível, sem corrermos o risco de chegar ao ponto do esgotamento. Aliás, já vimos os perigos e impactos do esgotamento, para indivíduos e organizações…

Afinal de contas, quem é que se conhece melhor e sabe em que circunstâncias atua da melhor forma, da maneira mais produtiva?

 

Pois… a definição de limites é um ato de autocuidado que tem impacto também para a organização.

 

A definição de limites e fronteiras passa por:

  1. Desenhar as linhas

Desenhar as linhas significa obter o espaço para executar o seu trabalho, com o máximo de clareza possível sobre as condições, tempo, contexto e ambiente que funcionam melhor para si, de preferência alinhando as suas prioridades com as da sua organização.

 

  1. Comunicar os seus limites com clareza

Definidos os limites, há que dar-lhes uso. Começando por comunicá-los expressamente a todos aqueles que por estes sejam impactados, desde superiores a pares. Isto nem sempre é fácil, mas nada como saber comunicá-los enfatizando como isso beneficiará a sua produtividade, bem-estar e a empresa!

 

  1. Honrar os próprios limites

Isto não termina com a comunicação dos limites desejados. Pelo contrário. Embora definir limites seja o primeiro passo (e já não é fácil), a chave (e o maior desafio) é cumpri-los.

Alguma dose de assertividade (quantas vezes connosco próprios!), firmeza e, claro, capacidade de negociação e flexibilidade (não há regra sem exceção!), são ingredientes necessários.

 

A automonitorização é essencial para a manutenção do bem-estar. E desse bem-estar depende a tão aclamada “alta-performance”.

 

Outro aspeto primordial é saber pedir ajuda. Tal como, por exemplo, recorremos ao personal trainer para nos ajudar a ir mais além na manutenção da nossa saúde e bem-estar físico, devemos também ter a capacidade de procurar a ajuda necessária, quando necessário. A ajuda que nos ajuda a recuperar o ponto de equilíbrio, a recalibrar as emoções, a muscular resiliência e autoconfiança.

 

Sabemos bem que este papel proativo do profissional não é de fácil implementação!

Sempre que falo de autocuidado e da importância de zelarmos pelo nosso bem-estar para podermos estar à altura, disponíveis e capazes de dar o nosso melhor, gosto de referir o momento das instruções de segurança nos aviões, quando se fala da máscara de oxigénio. A regra é: se viajar com crianças, deve primeiro colocar a máscara em si, e depois na criança. Esta metáfora serve como uma luva nesta questão.

Afinal, se não cuidar de si… quem cuidará?!

 

Fonte: Ordem dos Psicólogos Portugueses (2013). Investir na Saúde Mental através da Intervenção Psicológica. Lisboa.

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